«A Igreja deve ser pobre e refúgio para os pobres». A pobreza como espelho da crise espiritual do nosso tempo. Do Papa Leão XIV: forte denúncia contra a corrupção e o egoísmo e acusações à indiferença digital e à cultura do descarte (Chiara Lonardo)


Hoje parece prevalecer uma lógica que gera exclusão, humilhação e exploração, chegando a atingir populações inteiras. Diante disso, o Papa recorda as palavras severas do Salmo: “Devoram o meu povo como se fosse pão”, na Mensagem para a X Jornada Mundial dos Pobres, que será celebrada em novembro próximo.

No texto divulgado hoje, Leão XIV confia à Igreja e ao mundo uma reflexão intensa sobre a relação entre fé, justiça social e dignidade humana. O tema escolhido, extraído do Salmo 14, “O Senhor é o refúgio do pobre”, torna-se a chave de leitura de um documento que denuncia com força as novas formas de exclusão e convida os cristãos a redescobrirem o rosto de Deus nos mais frágeis.


O Pontífice parte da dramática experiência do povo de Israel durante a destruição do Templo de Jerusalém para sublinhar como cada época conhece formas diferentes de pobreza e desorientação. “As palavras do Salmista sugerem o percurso que somos chamados a realizar”, escreve Leão XIV, observando que ainda hoje “é necessário retornar à Palavra de Deus para verificar a importância que os pobres têm na vida da Igreja”.

O Papa denuncia uma sociedade que parece ter perdido o sentido da transcendência e que cada vez mais vive como se Deus não existisse. “A perda de sentido da transcendência na vida cotidiana não é mais tanto uma negação teórica da existência de Deus; antes, evidencia-se na falta de consideração da sua bondade e misericórdia para a construção da justiça pessoal e social”, afirma.

Segundo Leão XIV, as consequências desta deriva recaem, antes de tudo, sobre os pobres. “A ausência de Deus coloca as pessoas não mais uma ao lado da outra no respeito mútuo, mas uma sobre a outra sob o signo do domínio e da opressão”.

As novas formas de marginalização na era da tecnologia

Na Mensagem para a X Jornada Mundial dos Pobres, o Papa Leão XIV concentra a atenção nas modalidades com as quais as sociedades contemporâneas tendem a silenciar os pedidos de justiça provenientes dos últimos. “O grito de justiça dos pobres hoje é abafado com múltiplas técnicas, cada vez mais sutis, até tornar afônico cada esforço deles para fazer ouvir as próprias solicitações”, escreve o Pontífice. Uma denúncia que se estende também ao ambiente digital, acusado de amplificar preconceitos e desinteresse. “O ambiente digital radicaliza o preconceito em relação a eles e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas”.


Diante desta situação, o Papa recorda a confiança em Deus como única certeza para quem vive condições de exclusão. “Ao pobre não resta senão gritar para Deus e fazer chegar a Ele o seu lamento, tendo a certeza de ser ouvido porque Deus é fiel e rico em misericórdia”.

Leão XIV observa que a própria pobreza permite, muitas vezes, captar o que é essencial. “O pobre sabe reconhecer, mais do que os outros, o essencial, porque vive do essencial”. Por esse motivo, ele é capaz de manter viva a esperança mesmo quando tudo parece negá-la.

O Pontífice dedica palavras de consolo aos muitos que vivem sofrimento e solidão. “Quantos estão aflitos, quantos sofrem injustiça e são ofendidos, quantos estão no sofrimento e na dor, quantos estão sós e privados de sentido da vida podem encontrar consolação e nova motivação no Senhor”. Uma reflexão que transforma o tema da pobreza de simples questão social em uma profunda experiência espiritual e humana.

«Jesus é o refúgio de Deus para os pobres». O Papa chama a Igreja à partilha e à proximidade: Cristo se identifica com os últimos e os marginalizados

O coração teológico da Mensagem escrita por Leão XIV desenvolve-se na meditação sobre a figura de Jesus Cristo, apresentado como o cumprimento da promessa contida no Salmo.


“Ser refúgio não é apenas uma promessa, mas torna-se realidade na pessoa de Jesus Cristo”, afirma o Papa. Com a Encarnação, explica ele, Deus não fica distante da dor humana, mas entra na história compartilhando plenamente a sua fragilidade. “Jesus Cristo é realmente o refúgio de Deus para os pobres. Pela sua obediência ao Pai, desce até ao ponto mais baixo, onde se encontram os últimos”.

Leão XIV sublinha que Cristo não se limita a proteger quem sofre, mas assume a sua condição. “Em Jesus, Deus não apenas protege, mas compartilha a pobreza humana até a cruz”. Daí nasce o apelo dirigido às comunidades cristãs para que saibam reconhecer o rosto de Cristo nos esquecidos do nosso tempo.

“I poveri dei nostri giorni sono i dimenticati e gli emarginati: derubati di una parola e di un volto, oltre che del pane”, observa o Pontífice. E acrescenta: “Possam estes encontrar o Filho de Deus, que a todos se faz próximo sem ignorar ninguém”.

A Igreja é chamada a tornar esta presença concreta. “Na Igreja, seu Corpo, é Jesus quem oferece pão e amizade; traz luz e um horizonte de esperança; pronuncia o nome de cada um e devolve a todos a dignidade”. Uma tarefa que diz respeito sobretudo a quem é privado de casa, trabalho, instrução, saúde e segurança, para os quais o Papa indica na partilha a via privilegiada do Reino de Deus.

Um exame de consciência para toda a comunidade cristã


Na última parte da Mensagem, o Papa Leão XIV dirige à Igreja uma série de questionamentos que assumem o tom de um verdadeiro exame de consciência coletivo.

“Em Cristo somos chamados, portanto, também nós a nos tornarmos pobres e a nos fazermos refúgio para o pobre”, escreve. Para o Pontífice, a comunidade cristã não pode aceitar que milhões de pessoas continuem invisíveis. “A comunidade cristã não pode permanecer insensível diante dos muitos que hoje estão à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados em seus próprios muros”.

Recordando Santo Agostinho e a parábola do rico e do pobre Lázaro, Leão XIV lembra que Deus olha a história de uma perspectiva diferente da do sucesso e do poder. Por isso, propõe novamente a pergunta fundamental: qual lugar os pobres ocupam realmente em nossas comunidades?

“Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e a preferimos à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres? Ouvimos os seus pensamentos e compartilhamos as suas expectativas?”, pergunta o Papa.

O documento conclui com a recordação do oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis. Leão XIV recorda o episódio em que o Pobrezinho trocou as suas próprias roupas pelas de um mendigo para compartilhar concretamente a sua condição. “Queremos testemunhar que é possível, também hoje, experimentar a mesma alegria ao se colocar no lugar dos pobres e ao ouvi-los, em vez de apenas falar sobre eles”.


Daí o desejo final: que a X Jornada Mundial dos Pobres se torne “uma etapa significativa para redescobrir o rosto de tantos irmãos e irmãs que buscam refúgio em Deus e desejam sentir-se em casa em nossas comunidades”. Um apelo que Leão XIV confia à intercessão da Virgem Maria, para que a Igreja continue a caminhar ao lado dos últimos e a reconhecer neles o próprio rosto de Cristo.

 

Chiara Lonardo


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